No momento, você está visualizando Artrose no joelho após a menopausa: por que os joelhos pioram nessa fase e o que fazer

Artrose no joelho após a menopausa: por que os joelhos pioram nessa fase e o que fazer

A dor começou de um jeito que parecia passageiro. Um desconforto ao descer escadas, uma rigidez de manhã que passou a durar mais tempo do que antes. Depois, o joelho inchou sem nenhuma queda ou torção. Para muitas mulheres entre 50 e 65 anos, esse é o roteiro silencioso pelo qual a artrose no joelho após a menopausa se instala.

O que poucos explicam com clareza é o motivo biológico por trás disso. A artrose não chegou por acaso nessa fase da vida. Há uma conexão direta entre a queda do estrogênio e a aceleração do desgaste da cartilagem. Quando entendemos esse mecanismo, o tratamento faz muito mais sentido.

O papel do estrogênio na saúde da cartilagem

O estrogênio não é apenas um hormônio reprodutivo. Ele desempenha uma função protetora dentro das articulações, estimulando a produção de colágeno e proteoglicanos, as moléculas que dão à cartilagem sua capacidade de absorver impacto. Além disso, tem ação anti-inflamatória: reduz a liberação de citocinas que atacam o tecido articular.

Com a chegada da menopausa, os níveis desse hormônio caem de forma abrupta. O ambiente interno do joelho muda. A cartilagem perde suporte bioquímico, a sinóvia fica mais inflamada e o osso subcondral, que fica logo abaixo da cartilagem, começa a sofrer microlesões. O resultado é aquele edema ósseo que aparece na ressonância magnética e causa dor intensa, um sinal de que a articulação já está reagindo à perda hormonal.

Um estudo publicado na BMJ Global Health em 2025, que analisou dados de mais de 200 países pelo Global Burden of Disease, revelou que os casos de artrose em mulheres acima de 55 anos cresceram 133% entre 1990 e 2021. Ainda mais impactante: o número de anos de vida saudável perdidos por conta da doença subiu 142% no mesmo período. O joelho foi a articulação mais afetada.

Por que as mulheres desenvolvem artrose mais do que os homens

A artrose de joelho é cerca de duas vezes mais frequente em mulheres do que em homens, especialmente após os 55 anos. Esse dado não é coincidência. Além da queda hormonal, existem outros fatores anatômicos e biomecânicos que explicam essa diferença.

O ângulo Q, a inclinação entre o quadril e o joelho, é maior nas mulheres por conta da largura pélvica. Isso aumenta a pressão sobre o compartimento medial da articulação, acelerando o desgaste da cartilagem nessa região específica. Soma-se a isso a tendência ao ganho de peso durante a menopausa, que multiplica a carga sobre os joelhos a cada passo.

Recebo no consultório pacientes que ganham entre 5 e 8 kg nos dois primeiros anos da menopausa e atribuem a piora do joelho exclusivamente à idade. Mas o peso e a inflamação sistêmica causada pelo tecido adiposo têm impacto direto na cartilagem. Cada quilo a mais equivale a quatro quilos extras de pressão sobre o joelho durante a marcha, esse dado clássico da literatura ortopédica muda completamente a forma como abordamos o tratamento. Eu sempre oriento a perda de peso como parte do protocolo, não como conselho genérico, mas como medida terapêutica com efeito mensurável na artrose.

Como identificar que a artrose está relacionada à menopausa

Nem toda dor no joelho que surge após os 50 anos é artrose, e nem toda artrose é consequência direta da menopausa. O diagnóstico precisa considerar o contexto hormonal da paciente.

Quando atendo uma mulher nessa faixa etária com dor no joelho, peço além dos exames de imagem, radiografia e ressonância magnética, uma avaliação do histórico hormonal. A dor no joelho ao dobrar e esticar a perna associada a rigidez matinal que dura mais de 30 minutos, crepitação e inchaço recorrente sem trauma prévio são sinais sugestivos de artrose em progressão. Quando a ressonância mostra redução do espaço articular, edema subcondral e alterações meniscais degenerativas, o quadro já está estabelecido.

O que os tratamentos conservadores podem fazer nessa fase

O fato de a artrose ser degenerativa não significa que é irreversível na fase inicial e moderada. Minha abordagem prioriza modificar o ambiente interno da articulação antes de qualquer indicação cirúrgica.

Viscossuplementação com Ácido Hialurônico

O ácido hialurônico é o principal componente do líquido sinovial, aquele que lubrifica e amortece o joelho. Com a artrose e a queda do estrogênio, sua concentração diminui. A infiltração guiada por ultrassom repõe essa substância diretamente na articulação, restaurando a viscosidade do líquido. Funciona como trocar o óleo degradado de um motor: a peça não é nova, mas trabalha com muito menos atrito. Saiba mais sobre como o ácido hialurônico e o PRP se comparam no tratamento do joelho.

PRP e BMAC: a medicina regenerativa como aliada

Para casos moderados, utilizo o Plasma Rico em Plaquetas (PRP) e o Concentrado de Medula Óssea (BMAC). Essas terapias biológicas atuam de forma diferente do ácido hialurônico: em vez de apenas lubrificar, elas modulam a inflamação e estimulam os mecanismos de reparo do próprio corpo. 

Um estudo clínico prospectivo randomizado publicado em 2025 demonstrou que o BMA reduziu significativamente a dor em pacientes com osteoartrite de joelho após 6 meses, com resultados superiores ao grupo controle tratado com corticoide e bloqueio genicular.

O BMAC é obtido a partir de uma aspiração de pequena quantidade de medula óssea da crista ilíaca do próprio paciente. O material é concentrado em centrífuga e injetado no joelho sob guia de ultrassom. Por ser autólogo, retirado do próprio corpo, não há risco de rejeição.

Fortalecimento muscular como base do tratamento

Nenhuma infiltração sustenta seus resultados sem o apoio muscular adequado. O quadríceps e o glúteo médio são os principais estabilizadores do joelho. Quando estão fracos, o que é muito comum em mulheres sedentárias na menopausa, toda a carga recai sobre a cartilagem. Oriento sempre fisioterapia direcionada ao fortalecimento desses grupos musculares em conjunto com qualquer procedimento que realizo. Veja também exercícios seguros para quem tem problemas no joelho.

Quando a cirurgia passa a ser a indicação correta

Quando o desgaste é total e a dor compromete atividades básicas como caminhar e dormir, a artroplastia total de joelho se torna a melhor solução. Não é uma derrota, é a indicação correta para o estágio certo da doença. A prótese moderna tem durabilidade superior a 20 anos e permite retorno à vida ativa em poucos meses. O que não faz sentido é operar um joelho que ainda tem estrutura para responder ao tratamento conservador.

Cada paciente que atendo passa por avaliação individualizada: exames de imagem, histórico clínico, nível de atividade física, comorbidades e, no caso das mulheres nessa faixa etária, o contexto hormonal. O tratamento parte dessa leitura completa, não de um protocolo genérico.

Se você está na menopausa e sente que os joelhos pioraram nos últimos meses, não espere o quadro avançar. Agende uma consulta: a janela para o tratamento conservador tem um prazo. Depois que a artrose progride para o grau severo, as opções mudam.