O perfil do paciente que frequenta meu consultório mudou nos últimos anos. Se antes as lesões esportivas vinham majoritariamente do futebol e da corrida, hoje recebo diariamente praticantes de duas modalidades que explodiram em popularidade: o Beach Tennis e o Crossfit.
Ambos são excelentes para a saúde cardiovascular e para o condicionamento físico geral. No entanto, eles impõem desafios biomecânicos muito específicos aos joelhos. Entender a mecânica de cada um é o primeiro passo para evitar que o esporte se transforme em uma lesão cirúrgica.
Neste artigo, analiso os riscos de cada modalidade e ensino como você pode blindar seus joelhos para continuar treinando com segurança.
Beach Tennis: o perigo mora na areia fofa
Existe um mito de que a areia, por ser macia, protege as articulações. Isso é uma meia verdade. De fato, a areia absorve o impacto vertical, o que é ótimo para a cartilagem. Porém, ela cria um terreno de extrema instabilidade.
No Beach Tennis, o jogo é dinâmico, com frenagens bruscas, arranques rápidos e mudanças de direção constantes. Quando o pé afunda na areia fofa, ele trava. Se o corpo gira para buscar uma bola difícil e o pé continua preso na areia, a força de rotação (torque) vai toda para o joelho.
As lesões mais comuns na areia
Essa mecânica rotacional é a inimiga número um dos ligamentos e meniscos.
- Entorses e LCA: o travamento do pé com o giro do corpo é o mecanismo clássico de ruptura. Se você sentir um estalo seguido de inchaço imediato, leia meu artigo sobre lesão do ligamento cruzado anterior.
- Lesões de Menisco: os movimentos de agachamento profundo para defender uma bola curta, combinados com rotação, podem “morder” o menisco. Saiba identificar os sinais lendo sobre lesão de menisco.
Crossfit: intensidade e carga
O Crossfit parte de outra premissa. Aqui o desafio não é o terreno, mas a alta intensidade, o volume de repetições e as cargas elevadas em movimentos complexos como agachamentos (squats), saltos na caixa e levantamentos olímpicos.
O problema raramente é o esporte em si, mas a execução fadigada. Quando o atleta tenta bater um recorde pessoal ou terminar o WOD (treino do dia) rapidamente, a técnica pode falhar. Um agachamento com os joelhos valgos (caindo para dentro) sob carga alta gera uma pressão absurda na articulação patelofemoral.
O risco da sobrecarga
- Tendinites: o excesso de saltos e agachamentos pode inflamar o tendão patelar, causando a famosa “joelho do saltador”. Entenda mais sobre como tratamos a tendinite.
- Condropatia: o atrito repetitivo com carga excessiva acelera o desgaste da cartilagem atrás da patela. Se você sente dor na frente do joelho, recomendo a leitura sobre condromalácia patelar.
A ciência, contudo, mostra que o Crossfit, quando bem supervisionado, é seguro. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Sport Rehabilitation analisou diversos estudos e concluiu que a taxa de lesões no Crossfit é comparável à de outros esportes recreativos, como levantamento de peso e ginástica, desde que respeitados os limites do corpo.
Estratégias de proteção e fortalecimento
Não é necessário abandonar o esporte. O segredo está na preparação física paralela.
1. Fortaleça o quadril (glúteo médio)
O glúteo médio é o principal estabilizador do joelho. Se ele está fraco, seu joelho cai para dentro (valgo dinâmico) durante um agachamento no box ou uma aterrissagem na areia. Exercícios como a ostra ou passadas laterais com elástico são fundamentais.
2. Melhore a mobilidade de tornozelo
No Crossfit, a falta de mobilidade no tornozelo obriga o joelho a compensar o movimento, aumentando a sobrecarga. Alongamentos de panturrilha e soltura miofascial ajudam muito.
3. Respeite o descanso
O tecido biológico precisa de tempo para se adaptar à carga. Treinar todos os dias sem descanso leva a fraturas por estresse e tendinopatias crônicas.
Quando procurar ajuda?
Sentir dor muscular após o treino é normal. Sentir dor na articulação, ter inchaço ou bloqueio de movimento não é.
Se você pratica Beach Tennis ou Crossfit e percebe que o joelho está limitando sua performance, não ignore o sinal. O diagnóstico precoce evita que uma inflamação simples evolua para uma lesão cirúrgica.