O paciente chegou ao consultório com um histórico que já percorreu fisioterapia, viscossuplementação, PRP e dois ciclos de corticoide. A artrose está no grau 3 ou 4. A dor persiste. A prótese seria a indicação clínica correta, mas há um problema: a idade avançada associada a diabetes e hipertensão torna o risco cirúrgico elevado demais. Ou o paciente tem 55 anos, artrose moderada e simplesmente recusa a cirurgia por ora.
É nesse intervalo, entre o esgotamento das terapias convencionais e a cirurgia que ainda não pode ou não deve acontecer, que o bloqueio de nervos geniculares por radiofrequência cumpre um papel específico e documentado. Não é um tratamento que resolve a artrose. É um tratamento que controla a dor quando mais nada está conseguindo fazer isso.
O que são os nervos geniculares e por que eles importam
O joelho não sente dor por si mesmo: ele transmite dor. Os nervos geniculares são ramos sensitivos que percorrem a periferia da articulação, captam os estímulos dolorosos gerados pelo desgaste articular e os transmitem ao cérebro. São estruturas de tamanho milimétrico, sem função motora: bloqueá-los não compromete a força muscular nem o movimento do joelho.
Os principais alvos do procedimento são os nervos geniculares superomedial, superolateral e inferomedial, identificados pela sua relação anatômica com as estruturas ósseas do fêmur e da tíbia. O bloqueio interrompe essa via de transmissão da dor sem tocar a articulação por dentro, sem modificar a estrutura do joelho e sem o risco inerente a uma cirurgia maior.
Como o procedimento é realizado
Existem duas modalidades principais do bloqueio, e a escolha entre elas depende do perfil do paciente e do objetivo do tratamento.
O bloqueio farmacológico utiliza uma agulha fina guiada por ultrassom para depositar anestésico local e anti-inflamatório próximo aos nervos geniculares. O alívio tende a ser rápido, em horas a dias, mas transitório, com duração de semanas a poucos meses. Utilizo essa modalidade como teste diagnóstico e terapêutico inicial: se o paciente responde bem ao bloqueio farmacológico, confirmo que os nervos geniculares são realmente a via principal da dor e que o candidato é adequado para a radiofrequência.
A radiofrequência é a modalidade definitiva. Uma cânula específica é posicionada sobre cada nervo-alvo, guiada por fluoroscopia ou ultrassom, e emite energia eletromagnética que eleva a temperatura local até 80 a 90 graus Celsius, promovendo a ablação do nervo, que é interrompido definitivamente. O efeito é duradouro: a maioria dos pacientes mantém alívio significativo por seis meses a dois anos, dependendo da velocidade de regeneração neural de cada organismo.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia em 2024 avaliou 20 pacientes com artrose de joelho graus 3 e 4 submetidos ao bloqueio farmacológico dos nervos geniculares. Oitenta por cento tiveram resposta excelente no primeiro mês, com queda da dor de 8-9 para 2-3 na escala numérica. Os resultados foram mantidos principalmente até o terceiro mês, com declínio progressivo a partir daí, o que fundamenta a indicação da radiofrequência como passo subsequente em bons respondedores.
Para quem o bloqueio de nervos geniculares é indicado
A indicação principal são pacientes com artrose de joelho nos graus 3 e 4 da classificação de Kellgren-Lawrence, com dor de moderada a intensa que não respondeu ao tratamento conservador completo: fisioterapia, medicação oral, viscossuplementação e, quando aplicável, PRP ou BMAC.
Dentro desse grupo, há dois perfis que recebem mais frequentemente a indicação no meu consultório.
O primeiro é o paciente idoso com comorbidades clínicas que elevam o risco cirúrgico, como diabetes descompensado, insuficiência cardíaca ou doença pulmonar. Para esse perfil, o bloqueio por radiofrequência pode proporcionar anos de controle de dor sem o risco de uma artroplastia total de joelho.
O segundo é o paciente mais jovem, com artrose moderada, que recusa ou ainda não está pronto para a prótese. O bloqueio compra tempo com qualidade de vida enquanto o paciente amadurece a decisão ou enquanto condições clínicas são melhor controladas.
Uma terceira indicação que vejo com frequência crescente é a dor persistente após artroplastia total de joelho. Há pacientes que operam, têm implante bem posicionado na imagem, mas continuam com dor por hipersensibilização dos nervos geniculares que não foram desativados pela cirurgia. Nesses casos, o bloqueio posterior dos nervos pode resolver o que a prótese não resolveu.
O que não é indicado
Infecção ativa no joelho, instabilidade ligamentar grave, diabetes não controlado, presença de marcapasso e gravidez são contraindicações para o procedimento por radiofrequência. Pacientes com dor de origem predominantemente muscular ou psicossomática respondem mal ao bloqueio genicular, pois a via dos nervos geniculares não é o canal principal da dor nesses casos.
É por isso que o bloqueio farmacológico diagnóstico é um passo necessário antes da radiofrequência: ele confirma se o paciente vai responder antes de realizar o procedimento definitivo.
O que muda depois do procedimento
O joelho não fica diferente estruturalmente. A artrose continua lá, o desgaste permanece. O que muda é que o sinal de dor gerado por essa articulação passa a ter dificuldade de chegar ao cérebro com a mesma intensidade. O paciente começa a caminhar melhor, dormir melhor e, em muitos casos, consegue retomar a fisioterapia que a dor intensa impossibilitava.
Quando o efeito diminui, meses ou anos depois, o procedimento pode ser repetido. Os nervos geniculares se regeneram com o tempo, e a repetição da radiofrequência é segura e tecnicamente simples.
O bloqueio de nervos geniculares não substitui a prótese de joelho quando ela é a indicação correta. Mas para o paciente que não pode ou não deve operar agora, é hoje um dos recursos mais eficazes disponíveis para controlar a dor crônica da artrose avançada sem cirurgia.
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