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Bursite no joelho: quando a dor e o inchaço não vêm de dentro da articulação

O joelho inchou. A dor apareceu do nada, sem queda, sem torção. O paciente vai ao médico, faz a ressonância magnética e ouve que a cartilagem está bem, os ligamentos estão intactos, o menisco não mostra lesão aguda. E a pergunta inevitável: “Então o que está causando esse inchaço e essa dor?”

Em muitos desses casos, a resposta está fora da articulação. As bursas são pequenas bolsas cheias de líquido sinovial distribuídas ao redor do joelho com uma função específica: reduzir o atrito entre tendões, músculos e ossos durante o movimento. 

Quando uma dessas bolsas inflama, por sobrecarga, trauma, postura inadequada ou doença sistêmica, o resultado é a bursite, uma condição que gera dor e inchaço muito semelhantes aos de lesões internas, mas com origem e tratamento completamente diferentes.

Quais são as principais bursas do joelho e onde dói

O joelho tem mais de uma dezena de bursas, mas três delas concentram a maioria dos casos clínicos que recebo no consultório:

Bursite pré-patelar

Localizada na frente da rótula, entre a patela e a pele. Inflama por pressão direta, profissões que exigem trabalho de joelhos por longos períodos (mecânicos, jardineiros, trabalhadores da construção) são as mais afetadas. 

O inchaço aparece como uma bolsa d’água visível na frente do joelho, macia ao toque. A dor surge ao ajoelhar ou pressionar a região, mas nem sempre está presente durante a caminhada simples.

Bursite poplítea (cisto de Baker)

Forma-se na parte posterior do joelho. O líquido sinovial produzido em excesso dentro da articulação, muitas vezes por artrose ou lesão de menisco associada, migra para a bursa poplítea e forma o cisto. 

O paciente sente tensão e desconforto atrás do joelho, que piora com a extensão completa da perna. Tratar o cisto de Baker sem tratar a causa que está gerando o excesso de líquido intra-articular é erro clínico frequente: o cisto retorna.

Bursite anserina (pata de ganso)

É a mais comum entre os pacientes que vejo com artrose de joelho e sobrepeso. Localiza-se na face interna do joelho, logo abaixo da linha articular, no ponto onde três tendões, sartório, grácil e semitendíneo, se inserem na tíbia formando uma estrutura em leque que lembra uma pata de ganso. 

A dor é tipicamente noturna, piora ao subir escadas e ao cruzar as pernas. Muitos pacientes com artrose têm bursite anserina associada sem saber, e tratar apenas uma das condições explica por que a dor não melhora completamente com o tratamento prescrito.

Por que a bursite é confundida com outras lesões

A confusão acontece porque os sintomas se sobrepõem. Dor no joelho, inchaço, limitação de movimento, esses são os mesmos sinais de artrose, lesão de menisco e edema ósseo

O que diferencia a bursite é a localização precisa da dor fora da linha articular e o padrão de piora, geralmente com pressão direta sobre a bursa afetada ou com movimentos específicos, não com carga axial sobre a articulação.

A ressonância magnética pode mostrar a bursa inflamada com líquido em seu interior, mas em muitos casos o diagnóstico é clínico, feito pelo exame físico com palpação cuidadosa do joelho. 

O ultrassom é o exame mais prático para confirmar a inflamação da bursa, quantificar o líquido e guiar o tratamento quando necessário, e é o que utilizo no consultório antes de qualquer procedimento.

Quem desenvolve bursite no joelho

A bursite não tem um perfil único de paciente. Vejo essa condição em contextos bastante distintos:

Em pacientes com artrose, especialmente com sobrepeso, a bursite anserina é uma companheira frequente. A sobrecarga mecânica e o ambiente inflamatório sistêmico da obesidade aumentam a irritação das bursas periarticulares. Quando a dor interna do joelho não melhora proporcionalmente ao tratamento da artrose, olho especificamente para a bursa anserina.

Em atletas e corredores, a bursite iliotibial, inflamação da bursa na face lateral do joelho, pode coexistir com a síndrome da banda iliotibial e confundir o diagnóstico. O tratamento da bursa sem corrigir o problema biomecânico que a gerou resolve o sintoma no curto prazo, mas não elimina a causa.

Em pacientes com doenças reumáticas como gota e artrite reumatoide, as bursas são alvos frequentes de inflamação aguda. Nesses casos, o quadro pode ser intenso, vermelhidão, calor local, dor desproporcional, e exige diferenciação de uma bursite séptica, que tem tratamento completamente diferente.

Como o tratamento funciona

A maioria dos casos de bursite no joelho resolve com tratamento conservador, desde que a causa seja identificada e tratada em paralelo.

Controle da inflamação aguda

Na fase aguda, o objetivo é reduzir a inflamação local. Repouso relativo, aplicação de gelo, anti-inflamatórios e, quando indicado, uma infiltração guiada por ultrassom com corticoide diretamente na bursa afetada. 

A precisão do ultrassom é importante aqui: depositar o corticoide no local correto, dentro da bursa, não no tecido ao redor, define a eficácia do procedimento. Em bursas com muito líquido, realizo a punção para drenagem antes da infiltração.

Tratamento da causa de base

Sem isso, a bursite retorna. Se a causa é mecânica — pressão repetida no joelho —, é necessário modificar a atividade ou o posto de trabalho. Ou se é biomecânica — sobrecarga por fraqueza do glúteo médio num corredor, por exemplo —, a fisioterapia com fortalecimento específico é parte do protocolo. Se há artrose associada com excesso de líquido intra-articular alimentando o cisto de Baker, trato a articulação por dentro com viscossuplementação ou PRP enquanto cuido da bursa por fora.

Quando a cirurgia é necessária

Raramente. Reservo a abordagem cirúrgica para bursites crônicas que não responderam a múltiplos ciclos de tratamento conservador ou para casos de bursite séptica, infecção na bursa, que exigem drenagem e antibioticoterapia. Na prática clínica do dia a dia, a esmagadora maioria dos casos resolve sem chegar a esse ponto.

O erro mais comum que vejo

Tratar a dor e ignorar o diagnóstico. O paciente com bursite anserina que toma anti-inflamatório por conta própria, melhora parcialmente e conclui que é artrose. O corredor que descansa dois semanas, a bursite iliotibial cede, ele volta a treinar no mesmo volume e a inflamação retorna em quatro semanas. O paciente com cisto de Baker que drena o cisto sem tratar o menisco que está gerando o excesso de líquido.

A bursite no joelho tem tratamento eficaz. O que ela exige é diagnóstico correto, que começa pelo exame físico cuidadoso e pelo ultrassom para confirmar qual estrutura está inflamada, e um plano que trate a causa, não apenas o sintoma. Se você tem dor ou inchaço no joelho que não encontrou explicação nos exames habituais, pode ser que a resposta esteja numa bursa.

Tem inchaço ou dor no joelho que não passou com anti-inflamatório e repouso? Ou que o exame diz estar bem, mas a dor persiste? Agende uma consulta pelo WhatsApp. O diagnóstico preciso é o primeiro passo para o tratamento certo.