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Tendinite patelar: a dor abaixo da rótula que paralisa atletas e como tratar sem cirurgia

A dor começa depois do treino. Uma queimação logo abaixo da rótula que some em alguns minutos e parece não ser motivo de preocupação. Com o tempo, ela aparece durante o treino também. Depois, ao subir escadas. Depois, ao levantar da cadeira. Quando o paciente finalmente chega ao consultório, muitas vezes já treinou por meses ignorando os sinais que o tendão estava enviando.

A tendinite patelar, também chamada de joelho do saltador, é uma das lesões mais comuns em atletas que praticam esportes com saltos e desacelerações repetitivas: vôlei, basquete, Crossfit, futsal e corrida. Acomete até 20% dos atletas dessas modalidades e é responsável por um número expressivo de afastamentos prolongados quando não tratada corretamente na fase inicial.

O que é e onde exatamente dói

O tendão patelar conecta a patela (rótula) à tuberosidade da tíbia, o osso da canela. Toda vez que o quadríceps se contrai para estender o joelho, esse tendão transmite a força do músculo ao osso. Em esportes de salto, principalmente na fase de desaceleração após o impacto, essa transmissão de carga chega a ser extremamente intensa e repetitiva.

O problema não é o salto em si, é o acúmulo de microlesões no ponto de inserção do tendão no polo inferior da patela que supera a capacidade de regeneração tecidual. O resultado é um processo degenerativo localizado, mais tecnicamente chamado de tendinopatia, com alteração das fibras de colágeno e dor progressiva naquele ponto específico. Por isso a dor é precisa: o paciente consegue apontar com o dedo exatamente onde dói.

O diagnóstico é clínico na maioria dos casos. O ultrassom confirma o espessamento e a degeneração do tendão e permite planejar o tratamento com mais precisão. A ressonância magnética é solicitada quando há suspeita de ruptura parcial ou de lesões associadas dentro da articulação. Saiba quando a dor no joelho exige atenção médica imediata.

Por que ela piora progressivamente se não tratada

A tendinite patelar segue uma classificação bem estabelecida pela escala de Blazina, dividida em quatro fases. Na fase 1, a dor aparece apenas após o exercício, sem interferir no desempenho. Na fase 2, ela surge durante e após o treino, mas o atleta ainda consegue praticar. Na fase 3, a dor compromete a participação nas atividades. A fase 4 é a ruptura completa do tendão, situação que exige cirurgia e resulta em incapacitação imediata.

A maioria dos pacientes que vejo chega entre as fases 2 e 3. Treinou na dor por muito tempo acreditando que ela passaria sozinha, ou tomou anti-inflamatórios por conta própria para conseguir terminar a temporada. O problema é que o tendão degenerado não se recupera com repouso simples, ele precisa de estímulo controlado para reorganizar as fibras de colágeno e de intervenção quando o processo inflamatório já está instalado.

Fatores de risco que aumentam a sobrecarga no tendão

Nem todo praticante de esporte de salto desenvolve tendinite patelar. Existem fatores que tornam alguns indivíduos mais vulneráveis:

A fraqueza do quadríceps e dos isquiotibiais é o fator mais frequente. Quando esses músculos não têm capacidade de absorver adequadamente o impacto, o tendão recebe uma carga desproporcional. O impacto do sobrepeso nas articulações também é relevante: cada quilo a mais multiplica a tensão sobre o mecanismo extensor do joelho. O aumento abrupto de carga no treino, aumentar quilometragem ou volume de saltos de forma rápida, é outra causa clássica, especialmente em atletas amadores que treinam sem periodização adequada.

Encurtamento muscular da cadeia posterior, pisada pronada sem compensação com calçado adequado e superfícies muito duras de treino completam os principais fatores de risco. O mais importante é identificar qual deles está presente no caso específico de cada paciente, porque o tratamento precisa corrigir a causa, não apenas aliviar o sintoma.

O que funciona no tratamento

Exercício excêntrico: a base da reabilitação

O exercício excêntrico, aquele em que o músculo trabalha enquanto é alongado, como o agachamento controlado na descida, é hoje a intervenção com melhor evidência científica para a tendinite patelar. Ele estimula a remodelação do colágeno e aumenta a resiliência do tendão ao longo do tempo. A fisioterapia estruturada com esse protocolo, aliada ao fortalecimento do quadríceps e do glúteo, é o eixo central do tratamento conservador. Veja também quais exercícios são seguros para quem tem problemas no joelho.

Terapia por Ondas de Choque

Quando a tendinite já é crônica, com alterações degenerativas estabelecidas no tendão, a terapia por ondas de choque é uma das opções mais eficazes disponíveis. O equipamento emite pulsos acústicos de alta energia diretamente sobre o ponto lesionado, estimulando a circulação local, promovendo a formação de novos vasos sanguíneos e acelerando a remodelação do tecido. 

A Revista Brasileira de Ortopedia documenta resultados superiores às terapias convencionais em casos de tendinopatia patelar crônica tratados com ondas de choque. Utilizo esse recurso no consultório em casos que já não respondem adequadamente ao protocolo de fisioterapia isolado.

PRP: quando o tendão não regenera sozinho

O Plasma Rico em Plaquetas (PRP) é indicado para casos moderados a avançados, em que a degeneração tendínea está consolidada. O concentrado de plaquetas obtido do próprio sangue do paciente é injetado diretamente no tendão sob guia de ultrassom, liberando fatores de crescimento que estimulam a síntese de colágeno e modulam o processo inflamatório local. 

Por ser uma terapia autóloga, retirada do próprio corpo do paciente, o risco de reações adversas é muito baixo. Entenda melhor como o PRP se compara ao ácido hialurônico no tratamento do joelho.

O papel do ultrassom no consultório

Para qualquer infiltração que realizo no tendão patelar, utilizo o ultrassom em tempo real como guia. O tendão patelar tem uma espessura reduzida e depositar o material no local exato, e não ao redor dele, faz diferença nos resultados. O medo da agulha é uma preocupação comum, mas com guia de imagem e anestesia local, o procedimento é bem tolerado pela grande maioria dos pacientes.

Quando a cirurgia é indicada

A cirurgia é uma indicação rara na tendinite patelar, reservada para os casos de ruptura completa do tendão (fase 4 de Blazina) ou para os pacientes que não tiveram melhora após pelo menos seis meses de tratamento conservador bem conduzido. 

O procedimento envolve a retirada do tecido degenerado e o estímulo à cicatrização local. Os resultados são bons quando a indicação é correta, mas a grande maioria dos pacientes que atendo resolve o quadro sem chegar a essa etapa, desde que o tratamento comece cedo e com o protocolo adequado.

O erro mais comum que vejo é o atleta tratar a dor, com gelo, anti-inflamatório e repouso, sem tratar o tendão. A dor some, ele volta a treinar, e o ciclo de microlesões recomeça. Quando o quadro evolui para fase 3 ou 4, as opções ficam mais limitadas e a recuperação é mais longa. Se você tem dor abaixo da rótula que persiste por mais de duas semanas, agende uma avaliação antes que o tendão avance para um estágio mais difícil de reverter.