O paciente já fez fisioterapia. Já tomou anti-inflamatório por mais tempo do que deveria. Já descansou, já voltou, já sentiu a dor retornar. A tendinite ou a bursite que parecia estar cedendo simplesmente não resolve de vez.
É nesse ponto da linha do tempo clínica que a terapia por ondas de choque entra como uma opção real, não como recurso de última instância, mas como intervenção específica para condições que não respondem ao tratamento convencional sozinho.
É um dos recursos que utilizo no consultório e que ainda gera muito desconhecimento nos pacientes. Muitos chegam sem saber o que é, com receio de ser algo agressivo ou experimental. Não é nenhum dos dois.
O que são as ondas de choque e o que elas fazem dentro do tecido
A terapia por ondas de choque extracorpórea (ESWT, na sigla em inglês) utiliza pulsos acústicos de alta energia aplicados de forma não invasiva sobre a pele, direcionados à estrutura lesionada. Não é elétrica, não é cirúrgica e não envolve agulhas.
O mecanismo de ação vai além do simples alívio de dor. Quando as ondas acústicas atingem o tecido-alvo, acontecem três coisas em cadeia: o aumento da circulação local pelo estímulo à formação de novos vasos sanguíneos (neoangiogênese), a liberação de fatores de crescimento que aceleram a remodelação do colágeno degradado e a inibição de mediadores inflamatórios crônicos que mantêm o tecido num estado de dor persistente sem regeneração efetiva. Em síntese, a onda de choque quebra o ciclo de degeneração crônica e ativa os mecanismos de reparo que o tecido, por alguma razão, havia parado de acionar por conta própria.
Isso explica por que a terapia é mais eficaz em condições crônicas do que agudas. Num tecido recém-inflamado, o processo de reparo já está ativo. Num tendão degenerado há seis meses, ele precisa de um estímulo externo para recomeçar.
Para quais condições do joelho ela é indicada
Utilizo a terapia por ondas de choque no joelho principalmente em três situações clínicas:
- Tendinopatia patelar crônica. Quando a tendinite patelar já passou da fase inflamatória e se instalou como degeneração das fibras do tendão, o exercício excêntrico e a fisioterapia convencional têm eficácia reduzida sem um estímulo adicional à remodelação. Uma revisão de literatura publicada na Revista de Fisioterapia Desportiva analisou 7 estudos randomizados controlados com 268 pacientes e concluiu que a terapia por ondas de choque reduz a dor e melhora a funcionalidade em pacientes com tendinopatia patelar, com perfil de segurança adequado.
- Síndrome da banda iliotibial crônica. No corredor que treinou por meses com a dor lateral no joelho e chegou com a bursa do epicôndilo lateral espessada e fibrosada, a terapia por ondas de choque estimula a remodelação do tecido e reduz a sensibilidade local, complementando o trabalho de fortalecimento do glúteo médio que a fisioterapia conduz em paralelo.
- Artrose de joelho com sinovite crônica. Um ensaio clínico randomizado duplo-cego publicado na Acta Fisiátrica avaliou pacientes com osteoartrose de joelho tratados com ondas de choque focal associadas a exercícios de fortalecimento de quadríceps. O grupo que recebeu a terapia apresentou redução significativa da dor pela escala analógica visual em comparação ao grupo placebo, com benefício mantido até o terceiro mês de acompanhamento. Neste contexto, não substituo a viscossuplementação com ácido hialurônico pelas ondas de choque, mas utilizo as duas em sequência ou em combinação dependendo do perfil do paciente.
Como é o procedimento na prática
O equipamento emite os pulsos acústicos por meio de um aplicador que fica em contato com a pele, sobre a região de interesse. Antes de posicionar o aparelho, utilizo o ultrassom para identificar com precisão a estrutura a ser tratada e confirmar o ponto de maior degeneração no tendão ou a região da bursa inflamada. Essa etapa não é opcional: aplicar ondas de choque sem localizar corretamente o alvo anatômico reduz a eficácia do procedimento.
O protocolo padrão é de três a cinco sessões semanais ou quinzenais, dependendo da condição e da resposta do paciente. Cada sessão dura entre 10 e 20 minutos. Durante a aplicação, o paciente sente uma percussão rítmica e pressão local, que pode ser desconfortável em regiões muito sensíveis, mas raramente é intensa o suficiente para interromper o procedimento.
Nas primeiras 24 a 48 horas após cada sessão, é comum um aumento temporário da dor local, sinal de que o tecido foi estimulado e o processo inflamatório reparador foi ativado. Oriento os pacientes sobre isso antes de começar para que não interpretem esse aumento como piora do quadro.
O que não é indicado
A terapia por ondas de choque tem contraindicações que precisam ser avaliadas antes do início. Não realizo o procedimento sobre regiões com infecção ativa, tumores, distúrbios de coagulação não controlados ou sobre cartilagens de crescimento em pacientes ainda em fase de desenvolvimento ósseo. Em gestantes, a aplicação na região pélvica ou lombar também é contraindicada.
Para condições em fase aguda, com inflamação intensa e recente, o protocolo começa pelo controle da fase aguda com infiltração guiada por ultrassom antes de iniciar a terapia por ondas de choque. A sequência importa: estimular um tecido ainda em inflamação máxima não produz os efeitos regenerativos esperados.
O que o paciente pode esperar
A resposta clínica não é imediata. A maioria dos pacientes começa a perceber melhora progressiva a partir da segunda ou terceira sessão, com redução da dor em atividade e melhora na amplitude de movimento. Os resultados consolidam nas semanas seguintes ao término do protocolo, à medida que o tecido continua seu processo de remodelação.
O que determina a durabilidade do resultado, mais do que o equipamento em si, é a combinação com o tratamento causador. Ondas de choque num tendão patelar degenerado sem o protocolo de fortalecimento excêntrico em paralelo resolvem o sintoma temporariamente. Ondas de choque associadas à fisioterapia estruturada e ao fortalecimento de quadríceps e glúteo médio criam as condições para que o tendão não regrida ao estado anterior.
Se você tem uma tendinite, bursite ou artrose no joelho que não respondeu ao tratamento convencional, pode ser que a etapa que falta seja a estimulação do reparo tecidual, não mais repouso ou mais anti-inflamatório.
Agende uma avaliação pelo WhatsApp. Identificamos se a terapia por ondas de choque é a indicação correta para o seu caso e montamos o protocolo adequado ao estágio da sua condição.