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Viscossuplementação no joelho: como o ácido hialurônico é usado para tratar a artrose sem cirurgia

A consulta segue um roteiro que conheço bem. O paciente chega com a ressonância na mão, o ortopedista anterior disse que a cartilagem está “bem desgastada”, e a cirurgia foi mencionada como possibilidade. Mas o joelho ainda tem estrutura, não chegou ao grau em que a prótese é inevitável. É nesse intervalo, que pode durar anos, que a viscossuplementação cumpre seu papel.

É um dos procedimentos que mais realizo no consultório, e também um dos mais mal compreendidos. Parte dos pacientes acha que é uma injeção de corticoide. Outra parte confunde com o PRP. Não é nenhum dos dois. Entender o que é a viscossuplementação, como ela age e para quem ela realmente funciona é o que este artigo explica.

O que é o líquido sinovial e por que ele importa

Dentro de toda articulação saudável existe o líquido sinovial, um fluido produzido pela membrana que reveste o joelho por dentro. Esse líquido cumpre duas funções principais: lubrificar as superfícies articulares durante o movimento e nutrir a cartilagem, que não tem vasos sanguíneos próprios.

O principal responsável pela viscosidade e pela capacidade lubrificante desse líquido é o ácido hialurônico. Numa articulação jovem e saudável, a concentração de ácido hialurônico é alta e as cadeias moleculares são longas, o que garante que o líquido tenha a consistência certa para absorver impacto e reduzir atrito. 

Na artrose, esse equilíbrio se rompe: a concentração cai, as cadeias se fragmentam, e o líquido perde suas propriedades mecânicas. O joelho passa a trabalhar com um lubrificante degradado, como um motor rodando com óleo velho e diluído.

A viscossuplementação é a reposição desse ácido hialurônico por injeção direta dentro da articulação.

Como o procedimento é feito

O ácido hialurônico utilizado na viscossuplementação é produzido em laboratório, tecnicamente idêntico ao produzido pelo próprio corpo, mas com concentração e peso molecular controlados. Dependendo do produto escolhido, o protocolo pode variar de uma aplicação única a um ciclo de três aplicações semanais consecutivas.

Realizo o procedimento com guia de ultrassom em tempo real. A imagem permite visualizar a articulação, confirmar a presença de líquido sinovial e depositar o ácido hialurônico com precisão milimétrica no espaço intra-articular. Isso não é um detalhe técnico menor: infiltrar sem guia de imagem em um joelho com desgaste avançado e anatomia alterada aumenta o risco de depositar o material fora do local correto, comprometendo o resultado. O medo do procedimento é compreensível, mas a tolerabilidade com anestesia local é muito boa — explico isso em detalhes no artigo sobre infiltração no joelho.

O tempo total no consultório, incluindo a preparação, raramente passa de 30 minutos. O paciente sai andando e retoma as atividades leves no mesmo dia.

Para quem a viscossuplementação é indicada

A indicação principal é a artrose de joelho nos graus I a III, quando ainda há cartilagem remanescente suficiente para se beneficiar do ambiente lubrificado que o ácido hialurônico proporciona. No grau IV, com exposição óssea total, o procedimento tem eficácia limitada porque não há base cartilaginosa para preservar.

Também indico em casos de edema ósseo associado à artrose inicial, em pacientes com síndrome da dor femoropatelar e em situações em que o joelho perdeu o líquido sinovial por aspiração prévia ou por processo inflamatório crônico.

Há contraindicações. Infecção ativa no joelho ou na pele ao redor, alergia conhecida ao ácido hialurônico e derrame articular volumoso não drenado são situações em que não realizo o procedimento sem a devida preparação. Em casos de derrame intenso, dreno o líquido primeiro, pois essa etapa de punção antes da infiltração melhora a absorção e a eficácia do ácido hialurônico injetado.

O que esperar dos resultados e quando eles aparecem

Esse é o ponto que mais gera frustração quando não é bem explicado antes do procedimento. A viscossuplementação não age como um analgésico e não alivia a dor em 24 horas. O efeito se desenvolve de forma gradual nas primeiras duas a quatro semanas após a aplicação, à medida que o ácido hialurônico se integra ao líquido sinovial e o ambiente intra-articular melhora.

Os estudos mostram que os melhores resultados costumam aparecer entre o primeiro e o terceiro mês após a aplicação. Uma revisão sistemática publicada no Osteoarthritis and Cartilage analisou dados de 89 ensaios clínicos randomizados e concluiu que a viscossuplementação produz redução significativa de dor e melhora da função articular em pacientes com artrose de joelho, com perfil de segurança superior ao do corticoide em uso repetido.

A duração do efeito varia entre seis meses e um ano, dependendo do produto utilizado, do grau de artrose e do perfil do paciente. Peso corporal, nível de atividade física e a presença de fortalecimento muscular adequado, especialmente de quadríceps e glúteo médio, influenciam diretamente a durabilidade do resultado.

Viscossuplementação, corticoide e PRP: qual a diferença na prática

O corticoide age de forma mais rápida sobre a inflamação, mas tem efeito condrotóxico em aplicações repetidas e pode acelerar o desgaste da cartilagem quando usado cronicamente. Reservo o corticoide intra-articular para fases agudas de inflamação intensa, como pré-requisito antes de iniciar a viscossuplementação.

O PRP (Plasma Rico em Plaquetas) tem mecanismo diferente: atua modulando o ambiente inflamatório e estimulando reparação tecidual. Tem efeito mais pronunciado nos casos com componente inflamatório mais ativo e em pacientes mais jovens com artrose inicial. Em alguns casos, combino os dois — viscossuplementação para restaurar a lubrificação e PRP para modular a inflamação, dependendo do quadro clínico.

A viscossuplementação é, em geral, a primeira linha dentro dos ortobiológicos pela menor complexidade do protocolo, pelo custo comparativamente mais acessível e pela evidência consolidada ao longo de décadas de uso clínico.

O que potencializa o resultado

O ácido hialurônico não trabalha bem sozinho quando o resto da articulação está em desordem. Três fatores determinam se o resultado vai se sustentar ou durar apenas algumas semanas.

O primeiro é o fortalecimento muscular. Quadríceps e glúteo médio fracos transferem carga diretamente para a cartilagem a cada passo. Sem fisioterapia estruturada, o procedimento alivia a dor temporariamente, mas a mecânica que gerou o desgaste continua intacta. O artigo sobre exercícios seguros para artrose no joelho detalha o que pode ser feito em paralelo ao tratamento.

O segundo é o controle de peso. Cada quilo acima do adequado representa quatro quilos extras de pressão sobre o joelho durante a marcha. O ácido hialurônico melhora a lubrificação, mas não neutraliza sobrecarga mecânica.

O terceiro é o acompanhamento clínico. A viscossuplementação não é um procedimento único e definitivo, mas parte de um protocolo de preservação articular que pode incluir ciclos repetidos, ajuste do produto utilizado e combinação com outras terapias biológicas conforme a evolução do quadro.

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